quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Invictus: o poema

Invictus

Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds, and shall find, me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll,
I am the master of my fate;
I am the captain of my soul.

Tradução portuguesa.

Invictus

Do fundo desta noite que persiste
A me envolver em breu - eterno e espesso,
A qualquer deus - se algum acaso existe,
Por minha alma insubjugável agradeço.

Nas garras do destino e seus estragos,
Sob os golpes que o acaso atira e acerta,
Nunca me lamentei - e ainda trago
Minha cabeça - embora em sangue - ereta.

Além deste oceano de lamúria,
Somente o Horror das trevas se divisa;
Porém o tempo, a consumir-se em fúria,
Não me amedronta, nem me martiriza.

Por ser estreita a senda - eu não declino,
Nem por pesada a mão que o mundo espalma;
Eu sou dono e senhor de meu destino;
Eu sou o comandante de minha alma.

Autor: William E Henley
Tradutor: André C S Masini

O Apartheid na África do Sul

Definição e origem

Apartheid (significa "vidas separadas" em africano) era um regime segregacionista que negava aos negros da África do Sul os direitos sociais, económicos e políticos. 

Embora a segregação existisse na África do Sul desde o século 17, quando a região foi colonizada por ingleses e holandeses, o termo passou a ser usado legalmente em 1948.

No regime do apartheid o governo era controlado pelos brancos de origem europeia (holandeses e ingleses), que criavam leis e governavam apenas para os interesses dos brancos. Aos negros eram impostas várias leis, regras e sistemas de controles sociais. 

Entre as principais leis do apartheid, podemos citar:

- Proibição de casamentos entre brancos e negros - 1949.

- Obrigação de declaração de registo de cor para todos sul-africanos (branco, negro ou mestiço) - 1950.

- Proibição de circulação de negros em determinadas áreas das cidades - 1950

- Determinação e criação de bairros só para negros - 1951

- Proibição de negros usarem determinadas instalações públicas (bebedouros, bancos e casas de banho, por exemplo) - 1953

- Criação de um sistema diferenciado de educação para as crianças dos bantustões - 1953

Fim do Apartheid

Este sistema vigorou até o ano de 1990, quando o presidente sul-africano tomou várias medidas e colocou fim ao apartheid.  Entre estas medidas estava a libertação de Nelson Mandela, preso desde 1964 por lutar com o regime de segregação. Em 1994, Mandela assumiu a presidência da África do Sul, tornando-se o primeiro presidente negro do país.

 

“Dediquei toda a minha vida à luta do povo africano. Tenho lutado contra o domínio dos brancos, tal como tenho lutado contra o domínio dos negros. Sempre defendi o ideal de uma sociedade democrática e livre, em que todas as pessoas possam viver juntas em harmonia e dispor das mesmas oportunidades. É por esse ideal que espero viver para um dia o concretizar. Mas se necessário for, é um ideal pelo qual estou preparado para morrer.”

(Excerto do final do discurso que Nelson Mandela proferiu no banco dos réus no julgamento de Rivonia, a 20 de Abril de 1964)

“Sempre me movimentei em círculos onde o senso comum e a experiência prática eram importantes, e onde elevadas qualificações académicas não eram necessariamente decisivas. Pouco do que me tinha sido ensinado na faculdade parecia directamente relevante no meu novo ambiente. Qualquer professor médio evitava temas como a opressão racial, a falta de oportunidades para os negros e as inúmeras indignidades a que estão sujeitos na vida do dia-a-dia. Nenhum professor me disse alguma vez como erradicar os malefícios dos preconceitos raciais, nem me indicou livros que eu poderia ler sobre este assunto, ou as organizações políticas a que me poderia associar se quisesse fazer parte de um movimento de libertação disciplinado. Tive de aprender todas estas coisas aleatoriamente e através de tentativas e erros.”                 

Nelson Mandela, “Arquivo íntimo” , Lisboa, 2010, Editora Objectiva, págs. 122 e 27.

Argumentos contra o racismo

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A imagem foi retirada deste sítio.

«(…) É irónico que, embora o racismo seja uma realidade – e uma realidade chocante - a própria raça seja uma ficção. O conceito de raça não tem fundamento (…).

O racismo findará quando os indivíduos virem os outros apenas em termos individuais. “Não há indicações de ‘branco’ ou ‘negro’ nos cemitérios de guerra”, observou John F. Kennedy – e há uma moral significativa nessa observação.»

A. C. Grayling, O significado das coisas, Gradiva.

O racismo é um preconceito

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Para saber mais sobre este livro, ver aqui.

«Porque é que não basta seguirmos os nossos sentimentos, ou “seguir o instinto”, quando pensamos no que deveríamos fazer ou como deveríamos viver?

Os sentimentos são essenciais, como é evidente. Uma vida sem amor, agitação e até mesmo dor não é vida. Nenhuma ética em consonância com a vida é capaz de o negar. Só que os sentimentos não são tudo. Podem ser o começo mas não são o fim. Também deve haver um certo tipo de pensamento.

Vejamos o caso do preconceito. Ser preconceituoso é ter um forte sentimento negativo em relação a alguém pertencente a uma diferente etnia, sexo idade, classe social, etc. Se a ética fosse apenas uma questão de sentimentos, nada haveria a fazer contra tais preconceitos. Seria perfeitamente moral discriminar pessoas das quais não gostássemos.

O instinto diz sim. A ética diz não. Em contrapartida, a ética pode desafiar esses mesmos sentimentos. “Preconceito” quer dizer literalmente “pré-conceito”: é uma forma de não prestar realmente atenção. Mas é preciso prestar atenção. É preciso perguntar-nos porque é que nos sentimos de uma determinada maneira, se as nossas convicções ou sentimentos são verdadeiros ou justos, como nos sentiríamos na pele de outra pessoa, e assim por diante. Em resumo, precisamos de nos perguntar se os nossos sentimentos se justificam e, quando não, que sentimentos alternativos os deviam substituir.

Assim, a ética pede para pensarmos cuidadosamente, até mesmo sobre sentimentos que podem ser muito fortes. A ética pede para vivermos atentamente: preocuparmo-nos com o modo com agimos e até mesmo como sentimos.»

Anthony Weston, Ética para o dia-a-dia, Esquilo Editora, 1ª Edição, Lisboa, 2002, págs. 15-16.

O racismo é imoral

[Fotografia de Thomas Shipp and Abram Smith[8].jpg]

A fotografia retrata o linchamento de Thomas Shipp e Abram Smith, dois cidadãos americanos negros, em 1930. Este tipo de acções ocorriam especialmente no sul do Estados Unidos, mas também noutras regiões do país.

Abel Meeropol (cujo pseudónimo é Lewis Allen) foi um professor de Inglês judeu e ensinou numa escola de Nova Iorque. Depois de ver a fotografia, que se encontra neste post, escreveu um poema chamado “Strange Fruit”, onde exprime a injustiça e a brutalidade a que os americanos de origem africana estavam sujeitos.

Em 1939, Billie Holiday cantou pela primeira vez, num clube nocturno, o poema. Esta canção transformou-se num símbolo da rejeição do racismo.

A fotografia, o poema e a canção permitem-nos perceber melhor as razões que levaram Luther King (1929-1968) a defender, ainda que o seu país fosse uma democracia, a necessidade de utilizar a desobediência civil (que por definição é um mecanismo ilegal) para combater a discriminação contra os cidadãos negros, legalmente instituída nos Estados Unidos. A ideia subjacente à desobediência civil é que, quando determinadas  leis são imorais, é legítimo desobedecer-lhes de forma pacífica.

E de facto há muitas razões para considerar que o racismo é moralmente errado.

Strange Fruit

(escrito por Lewis Allen e Sonny White )

Southern trees bear strange fruit,
Blood on the leaves and blood at the root,
Black bodies swinging in the southern breeze,
Strange fruit hanging from the poplar trees.

Pastoral scene of the gallant south,
The bulging eyes and the twisted mouth,
Scent of magnolias, sweet and fresh,
Then the sudden smell of burning flesh.

Here is fruit for the crows to pluck,
For the rain to gather, for the wind to suck,
For the sun to rot, for the trees to drop,
Here is a strange and bitter crop.

Fruta Estranha

Árvores do sul produzem uma fruta estranha,
Sangue nas folhas e sangue nas raízes,
Corpos negros balançando na brisa do sul,
Frutas estranhas penduradas nos álamos.

Cena pastoril do valente sul,
Os olhos inchados e a boca torcida,
Perfume de magnólias, doce e fresca,
Então o repentino cheiro de carne queimando.

Aqui está a fruta para os corvos arrancarem,
Para a chuva recolher, para o vento sugar,
Para o sol apodrecer, para as árvores derrubarem,
Aqui está a estranha e amarga colheita

domingo, 25 de outubro de 2015

O 25 de abril de 1974 e o surgimento da democracia em Portugal

O 25 DE ABRIL: 32 PERGUNTAS E RESPOSTAS.

01 - Tinham medo de Salazar? Até os políticos?

02 - O povo tinha direito a voto ou era obrigado a votar em Salazar?

03 - Antes de 1974 já tinha havido alguma revolução?

04 - Alguém conseguiu fugir do Tarrafal?

05 - O que possibilitou a manutenção de uma ditadura durante 40 anos?

06 - Que razões levaram a formar a PIDE?

07 - De que modo os programas da rádio eram controlados pela Censura?

08 - A emigração nos anos 60 foi muita. Porquê?

09 - Porque é que os rapazes e as raparigas tinham de andar em escolas separadas? Como é que namoravam e conseguiam casar?

10 - A população portuguesa estava preparada para o 25 de Abril?

11 - Como é que "os guardas" do 25 de Abril conseguiram planear sem a PIDE os ver?

12 - Onde é que arranjaram coragem para fazer a revolução e conseguirem derrotar os guardas?

13 - O Zeca Afonso já tinha as canções preparadas? Ele já sabia que no dia 25 de Abril de 1974 ia haver uma revolução?

14 - Enquanto preparavam e executavam a revolução, os soldados pensaram na terríveis consequências que podiam sofrer se fossem descobertos e o golpe falhasse?

15 - Em que condições se entregou Marcelo Caetano?

16 - Houve mortos durante a revolução?

17 - Porque é que depois do 25 de Abril, os homens da revolução não pagaram com a mesma moeda?

18 - Como é que o povo soube que aquele dia era o dia da libertação?

19 - Nas pontas das espingardas foram colocados cravos vermelhos. Porquê?

20 - Todas as pessoas estiveram de acordo com este acontecimento histórico?

21 - 25 de Abril é uma revolução popular ou militar?

22 - Quem foram as pessoas que estiveram a frente do 25 de Abril. Existe alguma coisa a elogiá-las?

23 - Depois da revolução, o país teve dificuldades em organizar-se politicamente?

24 - O povo português não teria demasiada liberdade depois de 1974?

25 - Como é que foi a luta depois do 25 de Abril?

26 - Que impacto teve o 25 de Abril a nível mundial?

27 - O que aconteceu às nossas colónias? Como foram libertadas?

28 - Nos nossos dias, existe alguém que possa adquirir os poderes de Salazar?

29 - O que torna um regime totalitário absurdo?

30 - O que mudou em Portugal depois do 25 de Abril?

31 - O que aconteceu aos presos políticos e aos condenados políticos depois do 25 de Abril?

32 - Se antigamente as pessoas não tinham liberdade para serem felizes, porque não saiam de Portugal?

Fonte: Centro de documentação 25 de Abril, da Universidade de Coimbra, ver AQUI.

Nota: Os links em destaque são aqueles que irão ser visionados na aula.

A PIDE, a censura e a justiça social nas canções de Zeca Afonso

Democracia: requisitos fundamentais





Tarefas:


1. Identifica a mensagem presente em cada um dos cartoons.

3. Indica, a partir da interpretação dos cartoons e dos vídeos, quais são as principais características da democracia  por oposição à ditadura.


2. Elabora um quadro síntese, comparando o que acontece nos regimes democráticos e nos regimes não democráticos.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Flor do deserto - Guião de análise do filme e trailer

Título original do filme: Desert Flower
De: Sherry Horman
Com: Liya Kebede, Sally Hawkins, Anthony Mackie, Timothy Spall
Género: Drama
GB, 2009, Cores,

O filme, Flor do deserto, é baseado na história da modelo somali Waris Dirie. Ela nasceu numa família nómada da Somália  e  foi submetida a uma prática, vulgar no seu país e em vários outros, chamada mutilação genital feminina ou excisão. Mais tarde, quando se tornou conhecida internacionalmente, escreveu um livro e tornou-se uma ativista contra essa tradição cultural.

Após o visionamento do filme, responda às seguintes questões:

1. Dê três exemplos que ilustrem as diferenças existentes entre a cultura inglesa e a da Somália.

2. Enuncie duas regras morais que sejam erradas para uma pessoa que aceite o código moral dominante na sociedade inglesa, mas que a maioria das pessoas da sociedade somali considera corretas.

3. Na cultura somali, a prática da excisão justifica-se com  base em que ideias e valores?

4. De acordo com os valores morais dominantes nos países europeus, como é avaliada, do ponto de vista moral, a prática da excisão?

5. Na sua opinião, haverá ações que possam ser moralmente boas ou más, independentemente do contexto cultural? Porquê?

6. Indique duas passagens do filme que justifiquem a seguinte afirmação: a defesa das ideias do relativismo moral e cultural conduz ao conformismo.

7. Dê exemplos de duas passagens do filme que ilustrem o racismo e a xenofobia. Explique porquê.

8. Considera que a defesa dos direitos humanos e do relativismo cultural serão compatíveis? Justifique.

9. Explique o significado do título atribuído ao filme: "Flor do deserto".

10. Gostou do filme? Explique porquê.

A professora: Sara Raposo

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

A obediência e a experiência de Milgram

Além da influência do grupo no comportamento individual - o fenómeno do conformismo estudado por Asch - é também importante conhecer a experiência clássica de Milgram acerca da obediência à autoridade.

Depois da Segunda Guerra Mundial, levantou-se frequentemente a questão da obediência cega a uma/várias figura(s) de autoridade e se os que obedeciam partilhavam a mesma culpa dos que mandavam. Como está na natureza humana querer ter resposta para tudo, realizaram-se em universidades dos Estados Unidos da América várias experiências que pretendiam apurar, de uma forma ou de outra, até onde uma pessoa poderia ir, independentemente dos valores e crenças que afirmava ter.

A experiência Milgram mostrou que "seguir ordens" nem sempre é louvável.

A experiência Milgram, iniciada em 1961, destinava-se a avaliar a obediência a figuras de autoridade, medindo o grau de obediência dos participantes a ordens que entravam em conflito com a sua consciência pessoal. Ao voluntário era atribuído o papel de professor, e um actor era colocado no papel do aluno/aprendiz. Claro que os voluntários não faziam ideia que este homem era um actor. O voluntário recebia então uma lista com palavras que deveria ensinar ao aluno, juntamente com um botão que, quando accionado, daria um choque eléctrico ao aluno. Este devia ser usado quando o aluno cometesse um erro ao recitar as palavras. Na verdade, não eram administrados quaisquer choques, mas o actor era bom e fazia o voluntário crer que se encontrava num sofrimento horrível. Se o voluntário desse sinais de querer parar com a experiência, o responsável instigá-lo-ia verbalmente. Surpresa: muitos voluntários continuaram a administrar choques eléctricos quando o "aluno" já parecia morto.

Conformismo: a experiência de Asch

Porque é que seguimos a opinião do grupo, mesmo quando não concordamos com ela?

asch-experiment (1)

Como se explica a dificuldade, de muitas pessoas, em exprimirem pontos de vistas diferentes daqueles que são maioritariamente aceites? Porquê a tendência em "seguir o rebanho"?
A resposta num vídeo de 3 minutos:

 

Asch  e os processos de influência social: o conformismo

"Para aprofundar o estudo relativo aos processos de influência social, vamos analisar o estudo do conformismo, baseados nas experiências de Asch, cujo paradigma refere que as pessoas tendem a confirmar os seus juízos e percepções com as dos outros. Assim, recorre a um estímulo semi-estruturado uma vez que face a situações pouco estruturadas recorremos às opiniões dos outros, Asch concluiu que a dependência normativa refere-se aos riscos de perda de aceitação ou mesmo de exclusão do grupo quando o sujeito não segue as normas do grupo.

Para Asch, o conformismo corresponde a um seguidismo, ou seja, o sujeito que se conforma não adere de facto à opinião da maioria, ele conserva a sua própria opinião, mas assume publicamente a opinião da maioria."

Fonte do texto citado:

http://francelinarossana.wordpress.com/

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

2+2= ao que o partido quiser

1984, George Orwell

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

«Lá em baixo, na rua, o vento sacudia o cartaz descolado e a palavra SOCING aparecia e desaparecia caprichosamente. SOCING. Os princípios sagrados do SOCING. Novilíngua, duplopensar, a mutabilidade do passado. Winston sentiu-se como se errasse pelas florestas do fundo do mar, perdido num mundo em que o monstro era ele próprio. Estava só. O passado estava morto, o futuro afigurava-se inimaginável. Que certeza podia ter que de que um único ser humano hoje vivo estivesse do seu lado? E como saber se o domínio do Partido não duraria para sempre? À guisa de resposta, vieram-lhe ao espírito as três palavras de ordem inscritas na fachada branca do Ministério da Verdade:

GUERRA É PAZ

LIBERDADE É ESCRAVIDÃO

IGNORÂNCIA É FORÇA

Tirou do bolso uma moeda de vinte e cinco cêntimos. Também aí, em pequenas letras nítidas, estavam inscritas as mesmas palavras de ordem e, na outra face, a efígie do Big Brother. Até na moeda os olhos perseguiam uma pessoa. Nas moedas, nos selos, nas capas dos livros, no invólucro dos maços de cigarros – em toda a parte. Sempre aqueles olhos a fitar-nos e aquela voz a envolver-nos. Na vigília ou no sono, a trabalhar ou a comer, em casa ou na rua, no banho ou na cama – não havia fuga possível. Nada nos pertencia, excepto os poucos centímetros cúbicos dentro da nossa cabeça.

(…) De novo perguntou-se a si mesmo para quem estava a escrever o diário. Para o futuro, para o passado – para uma era provavelmente imaginária. E diante dele erguia-se, não a morte, mas o aniquilamento. O diário seria reduzido a cinzas e ele próprio a vapor. Só a Policia do Pensamento leria o que ele escrevera, antes de o varrer da existência e da memória. Como podia apelar-se ao futuro quando nem o menor vestígio de nós próprios, nem mesmo uma palavra anónima rabiscada num bocado de papel, tinha a hipótese de sobreviver fisicamente?

(…) Ele era um fantasma solitário dizendo uma verdade que nunca ninguém viria a ouvir. Mas enquanto dissesse, a continuidade, de forma obscura, não seria quebrada. Não fazendo-se ouvir, mas mantendo-se mentalmente são, ele prolongava a herança humana. Voltou a sentar-se à mesa, molhou a caneta no tinteiro e escreveu:

Ao futuro ou ao passado, a um tempo em que o pensamento seja livre, em que os homens sejam diferentes uns dos outros e não vivam sozinhos – a um tempo em que a verdade exista e o que foi feito não possa ser desfeito:

Da era da uniformidade, da era da solidão, da era do Grande Irmão, da era do duplopensar – eu vos saúdo!

Era um homem morto pensou.

“(…) A caneta deslizara pelo papel macio, escrevendo em grandes maiúsculas bem desenhadas:

ABAIXO O GRANDE IRMÃO, ABAIXO O GRANDE IRMÃO (…) vezes e vezes sem conta, enchendo meia página.

[Winston] não pôde impedir-se de sentir um arrepio de pânico (…). Quer escrevesse ABAIXO O GRANDE IRMÃO, quer se coibisse, não fazia diferença. Tanto adiantava que continuasse o diário como não. Fosse como fosse a Polícia do Pensamento haveria de o apanhar. Tinha cometido – e teria cometido na mesma, ainda que nunca tivesse pegado na caneta – o crime essencial que continha em si todos os outros. Pensarcrime, assim lhe chamavam. O pensarcrime não era coisa que se pudesse esconder eternamente. Uma pessoa podia esquivar-se com êxito durante algum tempo, durante anos até, mas mais tarde ou mais cedo seria fatalmente apanhada.

Acontecia sempre durante a noite – as prisões executavam-se invariavelmente à noite. O despertar em sobressalto, a mão rude a abanar-nos o ombro (…). Na maioria dos casos não se procedia a julgamento, nem auto de prisão. As pessoas limitavam-se a desaparecer, sempre durante a noite. O nome era apagado dos arquivos, suprimido todo e qualquer registo do que a pessoa alguma vez tivesse feito, negado e depois esquecido o facto de alguma vez ter existido tal indivíduo (…).

(…) Quase todas as crianças atuais eram horríveis. O pior de tudo, embora organizações como os Vigias as transformassem sistematicamente em pequenos selvagens incontroláveis, era isso não despertar nelas qualquer tendência para se revoltarem contra a disciplina do Partido. Pelo contrário adoravam o Partido e tudo o lhe que dizia respeito. As canções, os cortejos, as bandeiras (…), o culto ao Grande Irmão – para elas assentava tudo numa espécie de jogo maravilhoso. Toda a sua ferocidade era canalizada para o exterior, contra os inimigos do Estado, contra os estrangeiros, os traidores, os sabotadores, os criminosos do pensamento. Era quase normal as pessoas com mais de 30 anos terem medo dos filhos. E com bons motivos, pois raramente passava semana sem que o Times não trouxesse um parágrafo relatando o modo como um estuporzinho bisbilhoteiro – “heróica criança”, a expressão geralmente utilizada – ouvira esta ou aquela expressão comprometedora e denunciara os pais à Polícia do Pensamento.”»

George Orwell, Mil novecentos e oitenta e quatro, Edições Antígona, Lisboa, 1991, pp. 24, 25 e 30, 32 e 33).